1. The Handmaid’s Tale – 1ª e 2ª Temporada

5 estrelas

O título pode parecer meio “locão” para os iniciantes do idioma inglês, as imagens promocionais podem evocar uma série ambientada no período da Antiguidade ou Idade Média, mas não se engane: estamos falando da MELHOR série de drama dos últimos anos! Absolutamente necessária para entender o que acontece atualmente – e historicamente – no campo da luta pelos direitos das mulheres. Altamente recomendada para eleitores(as) de Bolsonaro, esquerdomachos mas também para aqueles(as) que estão abertos(as) a compreender como pequenas e frequentes concessões do cotidiano podem levar a grandes problemas socio-políticos e culturais.

A premissa da série é a de um futuro que não deu muito certo, fazendo com que severas decisões político-religiosas precisassem ser adotadas. A fertilidade das mulheres cai bruscamente em todo mundo, sobretudo por causa da poluição e de doenças sexualmente transmissíveis que tem deixado muita gente estéril. Parte dos Estados Unidos decide adotar um novo modelo de vida fundamentado na Bíblia Sagrada – e bota fundamentalismo nisso! –, além da intensificação de um conservadorismo político-ideológico e econômico extremos, com ações que vão desde fortalecer a permanência da mulher apenas nas atividades domésticas, separar as mulheres férteis exclusivamente para a procriação, servindo como escravas sexuais para homens do alto escalão, até a proibição de publicidade/ criação de rótulos para produtos nos supermercados e a extinção de veículos de comunicação como emissoras de TV, jornais e revistas.

 


As “aias” como são chamadas as mulheres destinadas exclusivamente para procriar se vestem de vermelho para se destacarem em lugares públicos e usam chapéus com abas nas laterais para desincentivar que olhem à sua volta e se comuniquem visualmente entre si. | Foto: Reprodução/Hulu.

 

Quem nos faz mergulhar nesse novo país – chamado de República de Gilead – é June, a garota que estampa o cartaz da série. Por meio das relações que ela se envolve (com a esposa do comandante, com suas amigas, com o comandante da casa que a hospeda, com suas memórias mais íntimas etc.) somos levados a compreender todas as perdas que vem sofrendo: sua antiga família, suas roupas, sua liberdade de ir e vir e até seu nome; sim, apesar de se chamar June, a protagonista passa a ter o nome do comandante que a detém, enquanto ela habita a casa desse determinado homem. Na série, ela se torna “do Fred”, já que seu atual “dono” se chama Fred Waterford.

O melhor investimento de tempo da sua vida, em termos de consumo audiovisual, é assistir essa série. Acredite, ela ajuda a identificar o quanto ainda somos machistas e precisamos desconstruir a cada dia isso em nós, sobretudo naquilo que acreditamos ser “pequenas atitudes”, “mimimi” ou do “politicamente correto” em excesso. Não se engane, nossos gestos, linguagem e conivência com estruturas e decisões políticas podem colocar as mulheres cada vez mais em situações de inferioridade. E isso está acontecendo hoje e agora. Mas dá pra virar o jogo!!!!

Ainda não ficou convencido(a) em assistir essa premiada e reconhecida série e quer mais motivos para isso? Então recomendo assistir ao vídeo abaixo, da youtuber Carol Moreira.

Em 2019 vai ter The Handmaid’s Tale no Globo Play. A série é exibida aqui no Brasil pelo canal à cabo Paramount e serviço de vídeos sob demanda da NET e da Claro, o NOW. Originalmente, é uma produção da plataforma Hulu, empresa norte-americana de entretenimento que, dentre outras coisas, faz algo parecido com a Netflix.


2. Black Mirror – 4ª Temporada

4,5 estrelas


Cartaz: Reprodução/ Netflix.

 

A quarta temporada foi lançada em 2017, mas só assisti agora. Ela é formada por 6 episódios independentes, ou seja, cada qual segue contando uma história única – apesar da surpresinha de convergência no último episódio, em que podemos visitar um museu repleto de referências tecno-horripilantes da série, que está toda disponibilizada na Netflix, para assinantes.

Apesar de ambientada num mundo com traços futuristas, a série nos leva a questionarmos nossas relações de hoje com o uso das tecnologias, bem como os dilemas que a amplificação desses usos podem nos trazer. E há sempre um alerta, uma reflexão que é paulatinamente trazida: dá pra confiar ao ser humano a manipulação tecnológica sem limitações? Sabendo do que já fomos capazes de produzir até aqui (guerras, terrorismo, conflitos civis, crack/ invasão de privacidade e culturas sexistas/ machistas/ homofóbicas etc.), é seguro que sigamos desenvolvendo novas tecnologias sem regulamentação para empresas e governos?

Destaco os episódios “Arkangel”, “Crocodille” e “Metalhead”, respectivamente 2°, 3° e 5° – apesar de ter um lugar especial no coração guardado para “Hang the DJ” (4° episódio) também. Você vai se angustiar com a possível criação de uma nova geração de mães superprotetoras que vão querer usar pra sempre o software “Arkangel” que monitora o que os filhos estão olhando e fazendo, através da transmissão de tudo o que se passa frente aos olhos dessa criança, podendo, inclusive, borrar essa imagem para impedí-la de ter contato com aquele objeto, cena, fotografia, rosto etc. Mas e quando elas se tornarem adolescentes e adultas, você vai deixar de acessar o software? Ou a curiosidade vai falar mais alto?

Vai se impressionar ao ver o que as pessoas podem ser capazes de fazer para ocultar as provas de seus crimes em “Crocodille”. Afinal, poder acessar as memórias/ material visual gravado pelos olhos de testemunhas que presenciaram os crimes, seria uma ferramenta e tanto para investigadores(as), não é mesmo? Entretanto, até onde alguém pode ir para eliminar essas testemunhas e sumir com esses registros?

“Metalhead” é para mergulharmos na reflexão de como é um regime de segurança pública obcecado por perseguir, encontrar e exterminar aqueles que “ameaçam” a sociedade. No episódio, essa tarefa policialesca é delagada a “cães de metal” que podem alcançar alta velocidade, identificar e desviar de obstáculos, fazer reconhecimento facial, atirar e se comunicar com outros cães. Será que essa é a melhor forma de combater o crime? Investir em tecnologias que caçam e matam é seguro e desejável? Uma pena de morte sancionada e executada dessa forma traz benefícios para quem?


3. Sense 8 – Episódio Final

4,5 estrelas


Cartaz: Reprodução/Netflix Brasil.

 

Depois de duas temporadas de tirar o fôlego, a Netflix anuncia que a série precisaria ser cancelada, sobretudo, pelo alto custo de sua produção – que envolve gravações em mais de oito países, mobilização de grande elenco de apoio/ figurantes e produtoras locais. Depois de uma onda de fãs engajados(as) pedindo a conclusão da série, eis que a empresa de streaming de vídeos decide gravar e proporcionar um episódio final, com aproximadamente duas horas, capaz de dar um desfecho à história desenvolvida até então.

A série mostra a relação de um grupo de oito pessoas (chamado de “conjunto Sense8”), que nasceram exatamente no mesmo dia e horário, em diferentes lugares do mundo e que possuem uma forte conexão entre si, podendo sentir as dores, as alegrias e os prazeres uns dos outros, ainda que estejam distantes geograficamente. O problema surge quando descobrem que existe uma organização que quer exterminar esse e outros conjuntos de Sense8 pelo mundo. Juntos, o grupo cria maneiras criativas, inteligentes, ousadas e até divertidas de se safarem das piores situações que você puder imaginar! E o mais legal: eles(as) contam com as habilidades dos membros do grupo para isso, ou seja, quem sabe lutar coloca esse talento à disposição; quem dirige bem, quem domina tecnologias informáticas, quem sabe atuar, abrir cofres, usar pensamento tático-investigativo, manipular substâncias farmacológicas etc. vai poder fazê-lo na hora certa.

A série é sobre não perder a humanidade que há em nós, ter empatia com as pessoas e nos organizarmos para enfrentar as forças destrutivas que queiram se impor. E pra isso tudo acontecer, o recheio vem com várias situações que nos levam a perceber a importância do respeito às diversidades políticas, ideológicas, culturais, afetivo-sexuais, de gênero, de raça e de credo das pessoas. O episódio final consegue equilibrar quase todos os gêneros cinematográficos como a série vinha fazendo até então: com ficcção científica, muita ação, drama, comédia, policial, aventura e suspense.



4. American Horror Story: Apocalypse – 8ª Temporada

4 estrelas


Cartaz: Reprodução/ FX Channel.

O Anticristo, que até o final da primeira temporada (American Horror Story: Murder House) era uma criança, cresceu e está empenhado em trazer ao mundo o apocalipse. Nessa jornada de reunir aliados e cumprir o que acredita ser o seu propósito, Michael Langdon (Cody Fern) precisa lidar com a nova situação em que o planeta se encontra: devastado, envolvido com fumaça tóxica, sem alimentos saudáveis para consumo e a proteção de alguns poucos seres humanos que restaram vivos e foram minuciosamente escolhidos para habitarem postos avançados subterrâneos, implantados em diferentes partes do planeta.


Michael Langdon tá dando o sangue para seguir a cartilha do que aprendeu sobre o “apocalipse ideal”. Mas será que ele segue o checklist certinho? E se seguiu, as decisões tomadas foram as melhores? | Foto: Reprodução/ FX Channel.

O que o Anticristo não contava é com a resistência de algumas bruxas da terceira temporada (American Horror Story: Coven), que sobreviveram e vão se esforçar até as últimas consequências para impedir que seus planos malignos se concretizem por completo – ou, pelo menos, elas vão tentar bastante. O embate entre as forças que querem a destruição versus a manutenção da vida na Terra rende momentos incríveis de muita ação, novos feitiços, suspense e, não podemos negar, de certa decepção com personagens sub-aproveitados(as) e explicações pouco convincentes sobre certas situações também… Mas vale muito a pena, eu juro! Quem é fã da série e já assistiu às temporadas 1 e 3, com certeza vai gostar bastante.


Venable começa a série governando, com mãos de ferro, o Outpost 3. O final dado a ela e a inserção dela na trama são camadas muito superficiais em relação à complexidade das situações trazidas pela série. Exemplo de personagem que poderia ter sido melhor explorada. | Foto: Divulgação/ FX Channel.

Grupos satanistas, Illuminatis, líderes políticos influentes, feiticeiros e assombrações se envolvem numa interessante trama para acabar com o mundo da forma como o conhecemos, trazer o caos e uma nova ordem a ele. No Posto Avançado número 3, local onde podemos acompanhar de perto como as coisas se desenvolvem pós-apocalipse, as pessoas são separadas em “purples” (roxos) e “grays” (cinzas), ou melhor: realeza e serviçais. A comida vem em porções hiper reduzidas, com textura, volume e formato bem diferentes do que estavam acostumados a consumir antes do fim. Isso tudo sem mencionar a personalidade severa daquela que governa o Posto e cria suas próprias regras de funcionamento, como a proibição de relações sexuais e a saída e tentativa de volta de volta ao Posto, já que ficam expostos à radiação, podendo contaminar a si e aos outros(as).


5. Westworld – 1ª Temporada

4 estrelas

A série estreou em 2016, mas fui assistir à primeira temporada só agora! Ela é transmitida pela HBO e tem 10 episódios. Seu nome também é uma referência ao parque temático onde a história se passa: um local construído para que seres humanos possam visitar e fazer o que der vontade com os(as) humanoides dotados(as) de inteligência artificial que vivem lá. Essas máquinas tem uma aparência e comportamento extremamente realísticos, capazes de se comunicar normalmente com um ser humano. Segundo as regras do parque e da programação desses robôs, não existe possibilidade alguma deles ferirem humanos – suas armas não possuem munição letal, o sistema trava ataques com faca e objetos – e há um amplo domínio desses humanos sob as máquinas.

Entretanto, o que pode acontecer quando as memórias dos robôs humanoides começarem a ficar mais fortes ou frequentes? E se a inteligência artificial for reunindo dados ao longo do tempo, montando um banco de informações capaz de decifrar melhor as inúmeras possibilidades de comportamento humano? Do que essas máquinas poderão ser capazes, hein?


Além do parque, todo construído na temática de filmes de faroeste, outra locação fundamental é o subsolo do parque, onde os robôs sofrem reparos diários, recebem novas roupas e são consertados pelas equipes técnicas. Foto: Divulgação/ HBO

 

Muito mais do que falar sobre futuros ultra-tecnológicos e das novas relações entre humanos e máquinas, a série aborda o existencialismo que convida a olharmos pra nós mesmos enquanto indivíduos, enquanto pequenos grupos e também como sociedade. O que os nossos desejos revelam sobre quem somos e para onde estamos caminhando? Filosofia, relações sociais, Psicologia, Engenharia e construção de narrativas em ambientes supostamente controlados aparecem costurados ao tecido da série. A gente se pega o tempo todo percebendo como construímos as nossas identidades e o quanto vivemos uma interdependência das escolhas feitas pelos outros e não apenas das nossas.

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